Representação artística de uma cidade da antiga Mesopotâmia, inspirada nos centros urbanos da Idade do Bronze. Imagem meramente ilustrativa.

Representação artística de uma antiga cidade mesopotâmica com muralhas, rio, embarcações e áreas agrícolas.
No final do século XIII a.C., o rei de Ugarit enviou uma carta ao governante de Alasiya, provavelmente Chipre, relatando ataques de navios inimigos contra seu território. Na correspondência, o soberano informava que suas tropas estavam em Hatti e sua frota em Lukka, deixando seu reino vulnerável. Pouco depois, Ugarit foi destruída e não recuperou sua antiga importância. A carta é um dos testemunhos mais expressivos da crise que atingiu o Mediterrâneo oriental e marcou o fim de uma era de intensa conexão entre reinos e civilizações.
As primeiras cidades e a escrita.
A Idade do Bronze leva esse nome por causa da liga de cobre e estanho, mas não é um bloco uniforme: começa em momentos diferentes conforme a região. Na Mesopotâmia, costuma-se situá-la a partir de cerca de 3000 a.C., com variações conforme a periodização adotada. No Mediterrâneo oriental, o auge é a chamada Idade do Bronze Tardia (aproximadamente 1600–1200 a.C.).
Antes disso, por volta de 3500–3100 a.C., Uruk, no sul da Mesopotâmia, já era uma das primeiras grandes cidades do mundo. Foi em Uruk que surgiram alguns dos primeiros registros escritos conhecidos, por volta de 3300 a.C. Essas inscrições iniciais, chamadas de protocuneiformes, tinham finalidade principalmente administrativa: registravam produtos, cereais, rebanhos e distribuições de alimentos. Com o passar dos séculos, a escrita se desenvolveu e passou a ser utilizada também em textos literários, religiosos e jurídicos. O código de leis de Ur-Nammu, de aproximadamente 2100 a.C., está entre os mais antigos preservados, enquanto o famoso Código de Hamurabi, da Babilônia, data de cerca de 1750 a.C.
Metais, pedras e redes de comércio.
Ao longo do segundo milênio a.C., a produção e a circulação de objetos de vidro ganharam importância, ampliando a variedade de materiais utilizados no comércio e no artesanato da região.. As tumbas reais de Ur (cerca de 2600–2400 a.C.) revelaram ouro, prata, bronze e lápis-lazúli, uma pedra azul cujas fontes mais conhecidas ficavam no atual Afeganistão. O estanho, indispensável para o bronze, era escasso e percorria longas distâncias. Tábuas de Kanesh, na Anatólia (séculos XX–XIX a.C.), registram mercadores assírios que levavam estanho e tecidos de Assur até lá. Mais tarde, por volta de 1500 a.C., a produção de vidro se expandiu, somando-se aos objetos de metal, à cerâmica e às pedras lapidadas.
Um mundo interligado.
Na Idade do Bronze Tardia, Egito, hititas, Babilônia, Assíria, Mitani e os palácios micênicos da Grécia faziam parte de uma rede de diplomacia e comércio. As Cartas de Amarna (século XIV a.C.), escritas em acádio, a língua diplomática da época, mostram reis que se tratavam como “irmãos” e trocavam presentes, casamentos dinásticos e pedidos de ouro. O naufrágio de Uluburun, ocorrido por volta de 1320 a.C., ao largo da atual Turquia, oferece uma das evidências arqueológicas mais importantes dessa economia. A embarcação transportava grandes quantidades de cobre e estanho, além de vidro, marfim, cerâmicas e outros produtos provenientes de diferentes regiões do Mediterrâneo e do Oriente Próximo.
O colapso
Entre aproximadamente 1200 e 1100 a.C., diferentes regiões do Mediterrâneo oriental passaram por profundas transformações. Hattusa, capital do Império Hitita, foi abandonada; importantes centros palacianos micênicos foram destruídos ou deixaram de funcionar; Ugarit foi devastada; e o Egito perdeu grande parte de sua influência em Canaã. Assíria e Babilônia também enfrentaram dificuldades, mas sobreviveram. O ano de 1177 a.C., associado à vitória de Ramsés III sobre grupos conhecidos como Povos do Mar, tornou-se uma referência simbólica para esse período de crises, embora as transformações tenham ocorrido ao longo de décadas e em ritmos diferentes.
O arqueólogo Eric H. Cline, em 1177 a.C.: O Ano em que a Civilização Entrou em Colapso, argumenta que não houve uma única causa capaz de explicar essa crise. Mudanças climáticas, secas, fome, conflitos, migrações, instabilidade política e interrupções nas rotas comerciais podem ter atuado em conjunto, formando o que ele descreve como uma “tempestade perfeita”. A interdependência que antes favorecia o comércio e a prosperidade também aumentava a vulnerabilidade dos reinos: quando uma região entrava em crise, os efeitos podiam alcançar outras. Existem diferentes interpretações entre os pesquisadores, e o debate continua aberto.
O que ficou.
O colapso da Idade do Bronze não representou o desaparecimento da civilização, mas uma transformação profunda do mundo antigo. Nos séculos seguintes, novos reinos ganharam força, o uso do ferro se difundiu em diferentes regiões e os sistemas de escrita alfabética passaram a ocupar um espaço cada vez maior. As mudanças políticas, econômicas e culturais desse período ajudaram a moldar o cenário do primeiro milênio a.C. Em Depois de 1177 a.C., Eric H. Cline investiga justamente como algumas sociedades conseguiram sobreviver e se reorganizar após essa crise.
Para saber mais
- CLINE, Eric H. 1177 a.C.: O Ano em que a Civilização Entrou em Colapso.
- CLINE, Eric H. After 1177 B.C.: The Survival of Civilizations.
- LIVERANI, Mario. Antigo Oriente: História, Sociedade e Economia.
- VAN DE MIEROOP, Marc. A History of the Ancient Near East, ca. 3000–323 BC.
As obras apresentam diferentes perspectivas sobre as sociedades do Oriente Próximo, suas relações políticas e comerciais e as transformações que marcaram o final da Idade do Bronze.
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