
Representação artística de um centro ritual da Idade do Bronze na Ásia. (Imagem meramente ilustrativa).
Por volta de 1200 a.C., quando Ugarit ardia e os palácios do Mediterrâneo oriental entravam em colapso, outras sociedades da Ásia seguiam em plena atividade. Em Anyang, capital tardia da dinastia Shang, o rei interrogava os ancestrais com ossos aquecidos ao fogo. Na planície de Chengdu, no atual Sichuan, um povo que não deixou escrita decifrada fundia máscaras de bronze com mais de um metro de largura e as enterrava em fossas rituais. Eram mundos diferentes, e nenhum deles precisa ser entendido como periferia do Mediterrâneo.
No artigo anterior, vimos de Uruk a Ugarit. Agora seguimos para o leste e para o interior da Ásia. A Idade do Bronze foi um fenômeno multicêntrico: vários centros, cada um com seu ritmo, suas formas de poder e suas rotas, ligados pela circulação de metais, técnicas e pessoas. O problema do euro centrismo não está em estudar Egito e Mesopotâmia, e sim em tomar um dos centros como medida de todos os outros.
O bronze sagrado e os oráculos: Shang
A dinastia Shang governou parte do vale do Rio Amarelo entre cerca de 1600 e 1046 a.C. De Anyang, sua capital tardia, vêm milhares de ossos e cascos de tartaruga com o jiaguwen, a mais antiga escrita chinesa conservada em quantidade expressiva. O rei perguntava aos ancestrais sobre colheitas, guerras e doenças, aquecia o osso e lia as rachaduras. Os grandes vasos de bronze, como o ding e o jue, serviam a banquetes oferecidos aos ancestrais. K. C. Chang defende, em Art, Myth, and Ritual, que o caminho para o poder passava pelo controle de recursos simbólicos, e que os bronzes eram menos mercadoria e mais insígnia de autoridade.
Sanxingdui: o enigma de Sichuan
A cerca de 40 km de Chengdu, o sítio de Sanxingdui mostra que o bronze sagrado tinha muitos “dialetos”. Em 1986, duas fossas revelaram milhares de objetos de bronze, jade, ouro e marfim, quebrados e queimados antes de serem enterrados. Entre 2019 e 2020, outras seis fossas foram descobertas, com datações por volta de 1200–1000 a.C. Há máscaras monumentais, uma árvore de bronze e uma estátua humana com mais de 2,5 metros. Não há paralelo para esse repertório no mundo Shang, e até onde se sabe não há ali uma escrita comparável à dos oráculos de Anyang. Por isso Sanxingdui segue como um enigma.
Urbanismo sem monumentalismo: o Vale do Indo
Entre cerca de 2600 e 1900 a.C., floresceu no atual Paquistão e no noroeste da Índia uma civilização com mais de mil sítios e grandes cidades como Mohenjo-daro, Harappa e Dholavira. Havia ruas em malha, tijolos padronizados, drenagem, pesos e medidas uniformes e uma escrita em selos que continua indecifrada. Jonathan Mark Kenoyer destaca que a marca dessa civilização são cidades bem organizadas, e não templos e palácios gigantescos. O Indo também se ligava à Mesopotâmia: os textos de Ur chamam a região de Meluhha, de onde vinham cornalina, marfim e madeira, em parte por rotas marítimas. A partir de cerca de 1900 a.C. as grandes cidades entraram em declínio, num processo gradual para o qual se propõem causas como o enfraquecimento da monção, mudanças nos rios e a queda do comércio de longa distância.
Oásis e estepes: BMAC, Sintashta e Seima-Turbino
No deserto do Karakum, no atual Turcomenistão, ficava o Complexo Arqueológico Bactria-Margiana (c. 2300–1700 a.C.). Em Gonur Depe, seu principal sítio, foram achados um selo com escrita do Indo, um selo de tipo elamita e joias de lápis-lazúli, pedra cujas jazidas mais conhecidas ficam no Afeganistão. Nas estepes, a cultura Sintashta deixou assentamentos fortificados e os mais antigos carros de guerra com rodas raiadas conhecidos, enquanto a rede Seima-Turbino espalhou armas de bronze de alta qualidade, com estanho do Altai, do norte da China ao Báltico. Por volta de 1200 a.C., carros de guerra surgem em tumbas de Anyang, sinal de que a tecnologia da estepe chegou ao mundo Shang, por rotas que ainda debatemos. Philip L. Kohl propõe ver toda essa vasta área como um sistema de interação, ligado pela troca de matérias-primas, pela difusão de técnicas e pelo deslocamento de pessoas.
Um fim com muitos ritmos
O Bronze asiático não terminou em uma data. O Indo se desurbanizou por volta de 1900–1700 a.C., o BMAC declinou por volta de 1700 a.C., e a dinastia Shang caiu para os Zhou por volta de 1046 a.C., que levaram adiante a ligação entre bronze e escrita, gravando inscrições em seus vasos rituais. Uma hipótese de leitura, e não uma conclusão fechada, é que centros menos ligados entre si tenham sofrido crises mais escalonadas, enquanto a rede densa do Mediterrâneo oriental produziu uma crise mais sincronizada. O ponto central é que a Idade do Bronze não pode ser contada como uma única história com um único eixo.
Para saber mais: CHANG, K. C. Art, Myth, and Ritual (Harvard University Press, 1983); LI FENG. Early China (Cambridge University Press, 2013); KOHL, Philip L. The Making of Bronze Age Eurasia (Cambridge University Press, 2007); KENOYER, Jonathan Mark. Ancient Cities of the Indus Valley Civilization (Oxford University Press, 1998); ANTHONY, David W. The Horse, the Wheel, and Language (Princeton University Press, 2007).
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